Magia do Imaginário

Um blog para entreter a alma e o pensamento, passar o tempo a fazer "nada", deixar fluir tudo aquilo que nos passa dentro, sem fazer juízos, viver um momento de cada vez, só isso!

Dos meus para nós. Estou na aldeia…

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Estou na aldeia dos pinheiros e eucaliptos e árvores de fruto e campos de milho e trigo. Um cheirinho a sol, chuva e vento a cruzar-se com os aromas das múltiplas flores de várias cores e feitios, uma fonte incrustada na pedra, de onde se pode ouvir quase uma queda de cascata e risos e vozes de crianças no recreio da escola em frente. Vou levar o lanche à mãe que dá lá aulas. Aproveito para brincar com os meus amigos durante o intervalo, jogamos à macaca e aprendo a saltar ao elástico. Depois, tenho de voltar para casa com a ama que está comigo.

Uns anos depois, a mãe já não dá lá aulas, mas vamos sempre para lá nas férias, sobretudo do verão. A mãe apaixonou-se por aquele sítio e construiu uma casa com jardim à volta mesmo pertinho da escola onde foi professora. A mãe era a professora acarinhada daquela aldeia porque ajudava muito as pessoas de lá e gostava genuinamente delas. Sempre que íamos para lá, o Mickey vinha logo a correr todo contente cumprimentar-nos. Era um cão vizinho de pequeno porte, corpo alongado, com pelo preto, branco e mel nos beiços, de cauda a abanar de modo célere, língua de fora e boca aberta como a sorrir e um olhar feliz. «Olha o Mickey, já está aí. Vai buscar as bolachas Maria para lhe darmos, ele está à espera! Olá Mickey, como estás? Ó que fofinho!!!».

E o Mickey regalava-se com as bolachinhas Maria. Depois, ouvia um assobio e lá voltava para donde veio. O nosso cãozinho amigo!

«Bem, meninos, já sabem, os primeiros dois dias é para limpar lá fora e dentro de casa.»

E lá rodávamos os olhos para cima como que a dizer mal da nossa vida, os dias mais chatos de sempre!

Então, a minha irmã começava por limpar dentro de casa o pó, aspirar… eu ia direto limpar as casas de banho… A minha mãe ia para a cozinha e sala e fazia as camas. O pai ia lá para fora cortar a relva. O meu irmão ainda era muito novinho e sacava o carro desportivo de andar com os pés e carregava nos aceleradores mecânicos, tal como os Flinstons!

No dia seguinte, apanhávamos as ervas daninhas, a minha mãe ia em volta do terreno, no lado de fora, cortar toda a vegetação seca, fazendo montinhos que o meu pai apanhava para um carrinho, trazia para a parte de cima do terreno e lá ia acumulando para depois fazer uma queimada controlada. O meu irmão continuava as suas corridas de fórmula um, acho que era o Sena.

Nos dias seguintes, fora as limpezas diárias que a minha mãe tinha agendado, que já não requeriam muito esforço, passava o meu tempo a brincar com as crianças vizinhas ou andava em correria de bicicleta até à represa. Ao fim de semana, parávamos na escola, para irmos jogar à macaca ou saltar ao elástico no recreio que, na altura, tinha sempre a porta de acesso aberta. A mãe ia sempre cuidar das suas árvores e flores no jardim, o pai ia dar as suas voltas pela aldeia, tomar o seu café, conversar com os locais. A minha irmã brincava um pouco, mas depois gostava era de estar no seu sossego a ler e o meu irmão criava histórias com os seus Action Men ou ia para o carro do meu pai fazer que conduzia até ao dia em que desengatou o Simca verde que começou a descer de costas pela rampa, não fosse ele guinar contra o muro, tinha descido e saltado direto para a estrada… uma das minhas amigas ainda tentou parar o carro por trás, sendo quase atropelada, mas lá se afastou com o medo da falta de força e só o carro ficou com um canto da traseira esmagado. Todos a correr para lá durante o alvoroço e o meu irmão ria-se às gargalhadas com a sua conquista. O meu pai, ah, o meu pai, sempre com aquele ar gracioso de quem não se vai zangar (porque em família, era raríssimo vê-lo zangado!), a dizer que «o que importa é estares bem, o carro, olha, depois eu trato do carro». Fazendo a ponte com a primeira vez que peguei no carro a seguir a ter tirado a carta, fui até ao shopping, estacionei de frente num lance só. Ao sair, a coluna deslocou-se (como o meu pai gostava de dizer) e foi contra a lateral direita do carro. Todo o lado raspado e amolgado. Chego a casa nervosíssima e digo «Olha, acabei de inaugurar o carro nas minhas mãos! Está na garagem se quiseres ver, depois diz quanto é o arranjo!». Riu-se na minha frente, foi lá abaixo ver o carro (não faço ideia da cara que poderá ter feito!) e quando voltou disse que estava tudo tratado, que não me preocupasse, e com um sorriso malandro. O carro estava-me atribuído porque ele tinha outro para ele, daí o seu alívio.

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