A água, entre o corpo e o mito
Não há matéria tão íntima e, ao mesmo tempo, tão misteriosa quanto a água.
Fisicamente, a água parece simples: duas partes de hidrogénio, uma de oxigénio. Contudo, dessa combinação aparentemente modesta nasceu uma das condições fundamentais da vida. A água transporta nutrientes, regula a temperatura, participa nas transformações químicas que sustentam as células. Percorre o corpo como percorre a paisagem: em rios invisíveis, em veias, em raízes, em folhas. Evapora-se, sobe, condensa-se, regressa à terra sob a forma de chuva. Nunca permanece inteiramente onde a deixámos. Está sempre a partir e sempre a voltar.
É talvez essa capacidade de transformação que faz da água uma presença tão poderosa nos mitos. Para os antigos, a água não era apenas aquilo que matava a sede. Era fronteira e passagem, origem e abismo, memória e esquecimento. O mar podia separar o mundo conhecido do desconhecido; um rio podia marcar a entrada noutro reino.
Nas histórias de muitos povos, a par de perspetivas trágicas injustamente associadas a algo bom, a água também surge como presença que acompanha a vida e a protege. Mergulhar nela não precisa de significar morrer para uma existência anterior, mas simplesmente entrar em contacto com uma força que sustenta, limpa e restitui. Emergir não é nascer de novo, mas continuar vivo — trazer consigo a mesma existência, renovada pelo contacto com aquilo que lhe dá sustento. A água não exige que a vida se transforme para merecer continuar: oferece-lhe apenas aquilo de que necessita para permanecer.
Também nas grandes narrativas da humanidade, as águas podem assumir uma dimensão imensa e poderosa. Mas a sua força não deve ser entendida como uma força destinada a destruir a vida ou a preparar o seu desaparecimento para que outra ordem surja. A água existe, antes de tudo, como condição de continuidade. A chuva alimenta a terra, os rios sustentam os ecossistemas, as nascentes saciam a sede e os corpos vivos, por norma, dependem dela para conservar o equilíbrio que lhes permite viver. O verdadeiro significado da água não está, portanto, na eliminação ou na manipulação da vida, mas na sua capacidade de preservação e união. Onde existe água em condições adequadas, existe a possibilidade de saúde, de crescimento e de permanência.
Por isso, a sua dimensão mítica talvez não resida no poder de apagar aquilo que existe, mas no poder silencioso de conservar. A água não precisa de destruir para transformar; não precisa de matar para dar lugar a outra vida. O seu valor mais profundo está precisamente no contrário: sustentar o que já vive e unir. É alimento, equilíbrio, abrigo e continuidade. O uso da água deve reconhecer essa natureza fundamental e respeitar o seu propósito mais essencial: servir a saúde e manter a vida, nunca ser utilizada para a eliminar, nem como razão para entrar em conflito. A água é de todos e existe para ser partilhada.
A água ajuda-nos a ver as nossas várias formas. E talvez seja esse o seu maior ensinamento: viver é mudar de forma sem deixar de ser. As formas mudam para nos podermos ajustar, sem necessidade de nos anularmos. Somos feitos de água e dependemos dela, mas também construímos sobre ela histórias, deuses, medos e esperanças. Entre a ciência e o mito, a água permanece como uma espécie de espelho primordial. Nela reconhecemos a matéria que nos sustenta e, ao mesmo tempo, o mistério de onde viemos e para onde, inevitavelmente, regressaremos. É sobre todos nós, tudo o que existe. É vida!