Era uma quinta-feira, um dia de sol e, tal como todas as quintas-feiras, era dia de a Guida Velha vir almoçar connosco lá a casa. Também fazia anos nesse dia e eu pedi à minha mãe uns trocos para ir ao bazar ali perto comprar-lhe um presente. Comprei-lhe uma latinha de chocolates muito gira (acabei por comprar duas, uma para ela e outra para mim, que ainda conservo no meu baú). A Guida Velha adorou, vieram-lhe as lágrimas aos olhos e uma ou outra asneira, dizia algumas… mas todos nos ríamos com a indicação de não usar… pois ficava muito mal a uma criança!! É o que sempre digo à minha filha, mas sei que um dia isso já não vai ser assim, entretanto, já será bem adulta! Opções… vá lá, todos sabemos, uma asneirinha ajuda muito a “deitar para fora”!
E, então, lá estávamos, as mulheres todas à mesa a conversar e a rir: a minha mãe, a minha irmã, eu, a Guida Nova e a Guida Velha. Sim, a minha mãe fazia questão de nos sentarmos todas juntas à mesa, sem separatismos nem sectarismos!
A Guida Velha tinha sido nossa empregada quando eu e a minha irmã éramos muito novinhas e morávamos noutra cidade. Agora, já estava reformada. E, como sempre, a minha mãe não esquecia nem deixava ninguém para trás. Por isso, a Guida Velha continuou a estar connosco até o cosmos reivindicar a sua presença sabe-se lá onde. Era uma mulher morena, alta, mais para o magro, cabeça grande e cabelo comprido, apanhado e enrolado como fazem no ballet, e tinha umas falhas entre dentes ainda existentes. Lembro-me de ter brancas, mas também me lembro de o cabelo ser bem escuro, portanto, não devia estar todo branquinho. Estávamos sempre a picá-la porque ela fazia o papel de se defender e dizer-nos «Ah, já vos digo, já… [e um palavrão qualquer]», mas dito pela Guida Velha era música para os nossos ouvidos e muita alegria. Trazia-nos sempre uns caramelos e rebuçados, que sempre cobiçávamos. Mas desta vez, quase chorou quando viu a latinha para ela, com laço à volta e tudo. Uma pessoa de quem me lembro com imenso carinho. Não sei se a tia Rosa chegou a conhecê-la… não tenho a certeza de os tempos se terem chegado a cruzar!