É intervalo e uma colega mais velha da turma do 3.º ano da escola primária trouxe cigarros e ousou perguntar-nos, a mim e às minhas outras colegas, se queríamos experimentar fumar. Rimos e dirigimo-nos à casa de banho, entramos num dos cubículos onde só tem a sanita, sentamo-nos lá como pudemos, éramos 3 ou 4, já nem sei bem. Ela puxa de um cigarro, leva à boca, saca de um isqueiro que tinha no bolso do casado por debaixo da bata e acende o cigarro como autêntica profissional fumadora. Olha para nós de soslaio com vontade de ver as nossas caras de parvas. Penso que era mesmo isso que transparecíamos, autênticas ignorantes e parvas. «Ó, como é que fazes?», «Então, é só meteres esta parte do cigarro na boca, pega lá…!», «Assim? E agora?», «Agora acendo o teu cigarro… quando chegar o lume puxa para dentro, é como sugares ar para dentro, ora vá, tenta!». Todas desataram a tossir e a rir. Não fui a primeira, fui a mais resistente, mas lá não resisti à tentação e acabei por ser a última a tentar fazer figurinha de tola, mas acho que nem tive tempo de meter o cigarro à boca. A fumarada no CW já extravasava por toda a casa de banho. De repente, ouvimos vozes de outras raparigas na casa de banho. «Olha, há aqui gente a fumar, vou dizer à professora!», «Ó, vamos é embora daqui… pira-te!», diz a colega mais velha e lá desatamos a correr, mas eis que quando ia a sair do wc fui apanhada! A empregada apanhou-me e lá me levou à sala, à frente da professora. A professora era a minha tia, cunhada dos meus pais, que me recebeu como sua aluna desde depois das férias do Natal, se a memória não me engana. É que, na primeira escola que frequentei, o professor ainda só nos dava trabalhinhos de desenhos de ondas e assim para fazer. A minha mãe também era professora primária e já estava a dar letras. Como não achava boa ideia ser a minha professora ou eu andar na escola dela, falou com a minha tia que me recebeu de coração aberto (já iam na letra “f”, nunca esqueci) e com quem desenvolvi, sobretudo a partir daí, uma relação de sobrinha-tia que me ficou para a vida e o além. Uma pessoa fantástica, fora de série, amiga de todos e uma autêntica querida. Mas, ali, era a minha professora e para não me tratar de modo desigual, lá puxou as minhas orelhas à frente de todos, punindo a minha ação e perguntando quem mais estava no grupo das fumadoras? Eu disse que não tinha fumado e que não sabia. Mais uns puxões de orelhas… As minhas amigas ficaram tão sensibilizadas por eu estar a levar por elas (pelos vistos, eu acho que nem sequer cheguei a fumar, porque não cheguei a ter oportunidade, diga-se!) que resolveram contar a verdade e disseram que elas tinham fumado, mas que eu não. Por terem falado e por se terem preocupado comigo, a minha tia perdoou-lhes (as minhas orelhas não, hehe!!) e fê-las prometer que não voltariam a fazê-lo. Acho que foi um momento horrível para a minha tia. Ela que detestava castigar, castigar-me a mim deve ter sido superdifícil para ela, porque ela era uma pessoa que só adorava abraçar e dar beijinhos! E a semana das meias rotas? Fica para a próxima…
Dos meus para nós. É intervalo e...
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Publicado 17-06-2026
• Dos meus para nós
Gabi
3 min