No meandro das gentes, estou parada no meio de uma calçada só para peões. Estou ali parada, as gentes andam de um lado para o outro, mas nem me tocam, contornam o meu corpo a passo lento, inclinado ou rápido. Tenho um papel na mão, e ao verem isso, aceleram o passo, evitam olhar-me, escondem a cara a tossir para dentro do casaco, e, se olho, dizem logo “não tenho tempo”, mesmo sem eu ter dito nada. Mas eis que há uma pessoa que para à minha frente e me diz “diga, estou cheia de tempo, diga, menina”. E eu mostro-lhe o papel, dou-lhe uma caneta e peço-lhe para escrever algo engraçado em três ou quatro linhas. “Escreva o que quiser, como quiser, com erros, sem erros, não importa, não julgue, não analise… escreva.” Não escreve… tira um banco dobrado que trazia às costas, dependurado na sua mochila, senta-se, pega na caneta e no papel e desenha a caricatura daquilo que me diz ser a vida e pergunta-me se concordo. Vejo muitas bocas a gritar e, pelos desenhos, são gritos muito altos… penso que somos todos nós a gritar, a gritar porque o mundo está a gritar… mas reparo também num conjunto mais pequeno de olhos ao canto a observar, mas só observam, calados e sem qualquer expressão de afeto. “Sim, infelizmente, concordo!”
O cubo mágico. No meandro…
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Publicado 11-05-2026
• O cubo mágico
Gabi
2 min