Treme de repente o telemóvel com notícias de um amigo. Já não nos vemos desde o século passado. Mas a voz é a mesmíssima e o tom o mesmo de tão acolhedor. Fico feliz de tal acontecimento e atropelamo-nos cautelosamente em todas as conversas e temas encetados. Não demos por ela e passaram quase duas horas disto e daquilo. A sensação de posse do momento é tão boa que nenhum dos dois pretende desligar, arrastando a conversa com a integração de mais um comentário, palavras diferentes, expressões de fim que não querem findar. “Enfim, e é assim. Muito bom este café telefónico!”
Com isto, dou-me conta de velhas amizades que perduram e perduram, recontando e ouvindo histórias antigas e as que ainda são novas, questionando o mundo e a família, vendo-nos igualmente diferentes e com tanto em comum, dando conta da nossa habilidade para sonhar e acreditar, da nossa capacidade de integrar o presente no passado e confrontá-los no que poderá vir a ser o futuro. Tudo isto numa cumplicidade infinita que nunca desune.
Penso nisto e creio que o respeito e o carinho retirado deste tipo de amizade é a âncora cuja corda ou corrente se estende ao longo de quilómetros para jamais largar.
Sinto ainda que quando a amizade é independente, quando os amigos não querem possuir a amizade dos outros para si mesmos e libertam e são livres, esta é a amizade que desafia o tempo. Tudo nela se torna intemporal e atual.
Quem conhece a amizade assim conhece uma das maiores virtudes. E eu sinto que sou uma pessoa de sorte!