- Bom dia, meninas, que dia tão bonito! Este ar e sol dá comigo em doido! Adoro! E o mar revolto lá ao fundo está o máximo! Vocês já tomaram o pequeno-almoço?
- Sim. Claro. Estávamos esfomeadas.
Responde Luísa ao espadaúdo simpático. Eu sorrio e encolho-me em modo de espreguiçar para dentro com bocejo interior e lanço um “dormia agora uma soneca”.
Luísa levanta-se sem pio e dirige-se sozinha pelo areal fora até, presumo, ao mar.
- Estás porreira?
- Sim. E tu?
- Muito bem. Aquilo noutro dia foi esquisito, no mínimo, não foi?
- Não, acho que foi muito normal… acontece imenso, não achas? No sentido de que acontece a todos, nada de especial.
- Sim, acho que tens razão.
- Há pessoas que não têm de ir mais além do que sentem e querem. Não têm de experimentar tudo, porque simplesmente sabem que é melhor ficarem por ali mesmo. Não sentias isso assim também?
- Creio que sim. Mas, por outro lado, até estava empolgado. Mas não sei porquê, não era, com certeza, AQUELA sensação de empolgamento que sabemos…
- Sim. É um sentimento bom, confortável, de bem-estar, mas que não cria impulsos deslumbrantes. E ao forçarmos parece que esse tipo de magia se desvanece porque deve ser só isso mesmo e vivida dessa forma! Acho que faríamos efetivamente bons companheiros, amigos de conversa entrelaçada e a passar horas de excelente qualidade. Mas, mais do que isso resulta numa sensação de que o resto não nos pertence, não existe. Só mesmo este companheirismo é que nos deixa bem. Depois, cada qual deve levar a sua vida. É assim que sinto, e tu?
- É verdade, eu também. No início era difícil compreender. Um gajo jeitoso (hehe), bem falante, culto, divertido a ser rejeitado por uma tipa do mesmo género. Parece que não deveria ser assim e, no entanto, é-o. Tinhas razão… a nossa atração baseia-se numa relação de companheirismo e bom passatempo, mas levá-la a outro nível, seria desvirtuá-la do que dela tiramos de melhor.
- Mudando o tema, o que gostarias de fazer em termos de trabalho que achas que não consegues ou não serias admitido? Não te pergunto se estás contente com o que fazes. Não importa o presente, mas a suposição de fazer outra coisa que considerasses importante e te permitisse realizar como pessoa e profissional.
- Não sei muito bem. Creio que nunca pensei nisso dessa forma. Gosto do que faço. Há coisas que gostaria de fazer, mas não paga uma vida a ninguém, a não ser que já tenhas um bom plafom garantido. Gostava de tratar de animais. Mas também sei que sou um medroso e não tenho arcaboiço para isso. Quando falo de animais, refiro-me a animais selvagens.
- Boa. Nunca pensaste que, se calhar, é coisa que nunca te passou seriamente pela cabeça e que, na verdade, não é mesmo isso que pretendes? É tipo o que gostarias de fazer, mas, não obrigado!?
- Esclarece, estou “emburrecido”!
- Hehe, é fácil. Eu estou sempre a lembrar-me que numa próxima encarnação quero estar integrada em programas de ajuda a pessoas em países pobres, ou então a deficientes, etc. Também já me passaram os animais pela cabeça, mas acabo a tender para os humanos, no fim de tudo. Uma vez candidatei-me a um cargo para uma zona na Amazónia ou lá perto. Uma área de alto risco. Iria coordenar a equipa dessa área em termos de ajuda aos locais. O salário era muito atraente. Fui recusada. Não tinha estatura nem experiência para o tipo de trabalho. Compreendi, claro! Ainda estive ligada a atividades de ajuda local, mas, no fim, não fiquei fã das pessoas envolvidas, nem de determinadas opiniões incluídas em diversas conversas. Depois, com o tempo, pediam-me ajuda pecuniária e não de outra ordem que seria eventualmente também necessária e que faria gratuitamente. Pecuniária… não que não pudesse fazê-lo, mas esse tipo de ajuda não me convence, de todo! Mas continuo em modo de sonho a projetar a minha ajuda internacional. Começo por pensar que teria de tirar outro curso, um que fosse mais ajustado à necessidade real. Mas, na verdade, nunca lutei verdadeiramente por isso, acabo a justificar com a falta de estatura, a miopia e a falta de tempo e dinheiro para preparar esse curso. Acabo a delegar à reencarnação. Admiro as pessoas que o fazem verdadeiramente e gostava de ter o alento delas, porque, isso sim, é o que falta: o alento.